03/03/2026

Voltando a Ser Eu 🌻

 Confesso que comprei roupas, pois, em dois meses de internação, eu perdi um peso considerável. Então, eu perdi metade do meu guarda-roupa (doei tudo; pensei em vender, mas achei melhor doar), e sobraram peças que já têm seus dez anos. Então, só fazendo menção mesmo.

Ficar internada e ver muitas meninas usando roupas de doação meio que me fez ser menos “pão-dura” comigo. Não posso usar uma roupa que não me serve por sentir culpa de comprar. Por isso, este ano reservei uma grana boa (fui juntando durante meses) para comprar coisas para mim. Eu nunca gostei de comemorar aniversário, mas, este ano, acredito que eu mereça algo especial.

Eu sempre acabo refletindo, né? Não tem jeito. É algo natural meu -desculpa. Mas vi meninas que ficavam brigando quando as roupas de doação chegavam: roupas com cheiro de urina e sujas. Tinha menina que era roubada pelas outras internas; algumas usavam a mesma peça de roupa por dias, e outras vestiam roupas que visivelmente não lhes cabiam.

Quando impus a mim mesma que eu ia me dar algumas peças e doar tudo (pois eu separava meio a meio para vender e doar), eu lembrei dessas colegas. Eu já usei muita roupa de brechó e doada por amigas, pois eu não tinha grana para comprar roupas no meu estilo. Então, sei como é alguém separar uma roupa bacana para te dar porque lembrou que aquilo é algo que você gosta.

Quando saí de lá, foram meses até eu compreender muitas coisas, e uma delas foi me permitir. Não estou falando de consumismo, mas, se algo está sendo desejado há tempo e o dinheiro não vai fazer falta, compre!

Não sou a pessoa mais feliz do mundo com cabelo curto, mas comprar coisinhas para o meu cabelo (incluindo perucas) fez algo pela minha autoestima. Aprendi que autoestima também faz parte de autocuidado.

Certa vez eu li uma frase: “Quando você vir um adulto em uma piscina de bolinhas, lembre-se de que a primeira oportunidade de ele estar nela foi aquela.”  E é sobre isso.

Quando a primeira peça de roupa chegou e meu companheiro me viu usando, ele disse, emocionado: “Que bom que você está voltando a ser você.” E faziam anos que eu não era eu mesma.E talvez seja isso que esteja acontecendo agora: eu estou voltando. Não para quem eu era antes, mas para quem eu sempre fui  só que com mais delicadeza comigo mesma. Se permitir também é cura. Se cuidar também é resistência. E, depois de tudo, eu entendi que não é sobre roupas. É sobre dignidade, sobre identidade, sobre me olhar no espelho e reconhecer ali alguém que merece existir inteira.

Se for para recomeçar, que seja com carinho.

“Voltar a ser quem você é também é uma forma de cura.”

02/03/2026

21:28

Se eu desistir por me comparar, vou deixar de existir.
E não estou falando de rede social  estou falando da vida mesmo.

A comparação é silenciosa. Ela não chega gritando, chega sussurrando:
“Olha onde você deveria estar.”
“Olha o que aquela pessoa já conquistou.”
“Olha como ela parece feliz.”

Mas a verdade é que cada pessoa vive um capítulo diferente da própria história. Você nunca está vendo o livro inteiro só um trecho, às vezes só a capa.

Quando fiquei surpresa com o fim do noivado dele, ouvi:
“Não acredite em tudo que é postado em rede social.”

E aquilo ficou comigo. Porque a gente esquece que todo mundo escolhe o que mostrar  e, principalmente, o que esconder.

A vida real não tem filtro.
Tem dúvidas, pausas, recomeços, inseguranças.
Tem sonhos que mudam.
Tem planos que não dão certo e ainda assim nos levam para lugares melhores.

Se eu desistir por me comparar, eu abandono a minha própria trajetória.
E ninguém pode viver por mim o que é meu para viver.

Talvez o segredo não seja parar de se comparar  porque isso é humano  mas lembrar que o tempo do outro não é o meu tempo. A estrada do outro não é a minha estrada.

Existir é insistir em ser quem eu sou, mesmo quando parece que estou atrás.
Porque, no fundo, não existe “atrás”. Existe processo.

E processo não se compara  se respeita.

21:33

Sem Lente, Apenas o Tempo


Na clínica, me deparei com o abandono, independente da idade e da condição financeira da abandonada. Vivenciei histórias: algumas leves, outras frívolas e algumas pesadas. Hoje estou estranha; estou lidando com a velhice e com o linear da vida se esvaindo. Não falo da minha vida, mas de alguém que eu amo, mesmo que não seja humana. Ela percebeu que a idade dela chegou. Não estou aqui para julgar as histórias das minhas colegas de clínica, mas isso me fez enxergar muitas coisas  sem uma lente, sem um filtro, apenas enxergar.

Hoje o dia não está ensolarado e, para dizer bem a verdade, não me sinto bem. Tento encontrar o equilíbrio, mas há momentos em que a depressão bate e nem é por ócio ou falta de Deus, como muitos dizem. Essa doença apenas bate, se aconchega de forma traiçoeira, e há dias e dias. Quando minha depressão começou a se agravar, anos atrás, pessoas queridas começaram a me desvalorizar; eu não estava no meu 100%. Não é só a velhice que faz das pessoas descartáveis.

Sinto uma carga muito grande hoje e, muitas vezes, essa carga dura dias. Escrever aqui, enquanto procuro um novo profissional, é para me aliviar, me tranquilizar. Mesmo que eu faça de forma pública, é como um registro dos meus dias bons e ruins. Antes, esse blog se chamava Vampiria’s Journey, pois, de fato, eu estou em uma jornada; mas, se tratando de um diário virtual, achei mais pertinente mudar de nome.

Aqui Eu Sou 100%


 Por não ter privacidade, eu nunca tive diários. Aliás, eu até tentei, mas eles sempre eram lidos pela minha mãe e pelo meu irmão mais velho, então desisti. Mesmo que meu companheiro respeite o meu espaço, não consigo me expressar em folhas de papel. Não estou aqui para me expor para estranhos, apenas preciso deixar pensamentos soltos por aí. Foi assim que consegui amigos e colegas, por mais que a culpa, em alguns aspectos, seja minha pelo afastamento.

Não sei aonde este blog irá me levar, tampouco se, em certo momento, deixarei ele para trás ou deixarei o Obsidian para trás e ficarei com este, já que, para mim, é um refúgio seguro. Acredito que escrever aqui irá me ajudar; será meu aliado enquanto não reencontro um bom profissional para me ajudar com as minhas demandas. Escrever, mesmo que do meu jeito, foi um remédio para mim. Foi algo que me fez estreitar fronteiras e conhecer pessoas. Muita gente da minha idade acharia perda de tempo ter um blog, mas essas mesmas pessoas estão expondo, sem pudor, suas realidades e vidas nas redes sociais, onde o que vale são as imagens.

Não acho ultrapassado explanar ideias; ultrapassado é acreditar que palavras não curam e não fazem nada pela gente. Ultrapassado é acreditar que se pode sobreviver sem suporte, que você está sempre sozinho. Mas sempre há alguém conosco, nos dando alento. Muitas vezes idealizamos demais nossas companhias, seja para o bem ou para o mal. Por isso eu ainda escrevo: isso me acalma e me faz bem. Posso ver minha evolução enquanto tento. Posso escrever aqui sem dever nada a ninguém. Posso ser eu por inteiro. No Obsidian, sou apenas 65% de mim; aqui, sou 100%.

Nos dias bons ou não, eu vou escrever aqui  até quando a minha alma pedir!

“Escrevo porque preciso.” — Marguerite Duras


01/03/2026

Há Dias e Dias...

Há dias como hoje em que não acordo muito bem. Fico na cama até mais tarde e converso com meu companheiro sobre as minhas aflições. Voltei diferente daquele lugar; muitas vezes não me sinto mais eu mesma e fico a vagar entre o meu antes e o depois da internação.

Por vezes há dias bons, mas, na maioria das vezes, limito-me apenas a escrever  e isso me chateia, me irrita e me deixa frustrada. Parece que a medicação não dá conta. Fui vítima de uma profissional que imprimiu suas próprias frustrações em mim e desistiu de me tratar. Há dias e dias. As noites, muitas vezes, são longas, e eu fico a vagar na cama, de um lado para o outro.

Há dias em que me sinto esperançosa; em outros, sou apenas um fragmento do que já fui  mas, na maioria das vezes, estou inerte, frustrada e triste. Eu não queria que fosse desta maneira, mas hoje está sendo. E, bem, faz parte da minha jornada, não é mesmo?

Escrevo para mim, talvez para mais alguém  mas eu apenas escrevo. Hoje eu não acordei muito bem… mas quem sabe amanhã eu acorde melhor?

Talvez eu ainda não me reconheça por inteiro, mas sigo aqui. Respirando. Tentando. E, mesmo nos dias em que tudo parece pesado demais, há algo em mim que insiste em permanecer. Talvez isso também seja uma forma de esperança.Entre o antes e o depois, sigo me reconstruindo em silêncio. Não sou mais a mesma e talvez nunca seja. Mas ainda há vida em mim, mesmo que, por agora, ela respire baixinho.


UPDATE:14:07

Estendi as roupas no varal e me sentei para tentar ler um livro.Fazia dois meses que eu nem sequer havia terminado os três livros que comecei a ler.Consegui ler 30 páginas, isso pra mim foi uma vitória, o nome do livro é Uma garota mágica se aposenta. 14:09

UPDATE:17:47

É  interessante, como coisas que eu me importava antes, agora me dão um certo tédio e eu não ligo muito pra elas.Acredito que isso seja bom.


Na Janela

 Debrucei-me na janela,o tempo fechava lentamente e eu respirava profundamente para não me queixar mais uma vez,pois sentia a sua ausência,olhando para o horizonte me sentia menos covarde em admitir que sentia a sua falta.Queria me resguardar,mas meu orgulho me fazia um homem tolo.Segurando na mão esquerda uma xícara de café requentado...Teimei em questionar as coisas que estavam diante dos meus olhos,tentava me agarrar na parábola de uma sensatez tão tola e ingenua,que eu senti pena d'eu mesmo por alguns minutos.Procuramos entender coisas que precisamos apenas sentir,a vida passa e ficamos presos olhando pro horizonte e nos perguntando - 'poderia ter feito diferente?poderia!'.

O meu rancor era mil vezes mais intragável do que essa xícara de cafe frio,eu me apegava á objetos esquecidos no fundo do armário,tentava me segurar com aflição as minhas lembranças,eu não queria esquecer,mas também não queria lembrar,pois a lembrança é assumir que errei,que falei muito e ouvi pouco,que não escutei meus instintos e suas intuições e me pego segurando o choro,com o vento batendo em meus olhos e fazendo com que estes ardam.Fico acreditando na tolice que tu voltará e é por isso minha amiga,que todos os dias bebo café frio e requentado,pois espero um dia tomar uma xícara quente do café recém feito por você...Não lhe peço perdão,pois você diria sabiamente:

-Não peça desculpas á mim,mas desculpe a si mesmo e aceite que nem sempre podemos ter razão,mas que devemos ser justos.

.

Ele fechou cuidadosamente a janela,a chuva estava chegando aos poucos,com pingos grandes e vento forte,ele precisava lavar a louça,tirar a roupado do varal,chamar os gatos para comer e tomar um longo e morno banho na banheira.Antes,olhou o maço de cigarros amassados na mesa da cozinha,finalmente decidiu parar de fumar,agora que não tem mais ela dizendo que ele deveria fazê-lo.☽