Confesso que comprei roupas, pois, em dois meses de internação, eu perdi um peso considerável. Então, eu perdi metade do meu guarda-roupa (doei tudo; pensei em vender, mas achei melhor doar), e sobraram peças que já têm seus dez anos. Então, só fazendo menção mesmo.
Ficar internada e ver muitas meninas usando roupas de doação meio que me fez ser menos “pão-dura” comigo. Não posso usar uma roupa que não me serve por sentir culpa de comprar. Por isso, este ano reservei uma grana boa (fui juntando durante meses) para comprar coisas para mim. Eu nunca gostei de comemorar aniversário, mas, este ano, acredito que eu mereça algo especial.
Eu sempre acabo refletindo, né? Não tem jeito. É algo natural meu -desculpa. Mas vi meninas que ficavam brigando quando as roupas de doação chegavam: roupas com cheiro de urina e sujas. Tinha menina que era roubada pelas outras internas; algumas usavam a mesma peça de roupa por dias, e outras vestiam roupas que visivelmente não lhes cabiam.
Quando impus a mim mesma que eu ia me dar algumas peças e doar tudo (pois eu separava meio a meio para vender e doar), eu lembrei dessas colegas. Eu já usei muita roupa de brechó e doada por amigas, pois eu não tinha grana para comprar roupas no meu estilo. Então, sei como é alguém separar uma roupa bacana para te dar porque lembrou que aquilo é algo que você gosta.
Quando saí de lá, foram meses até eu compreender muitas coisas, e uma delas foi me permitir. Não estou falando de consumismo, mas, se algo está sendo desejado há tempo e o dinheiro não vai fazer falta, compre!
Não sou a pessoa mais feliz do mundo com cabelo curto, mas comprar coisinhas para o meu cabelo (incluindo perucas) fez algo pela minha autoestima. Aprendi que autoestima também faz parte de autocuidado.
Certa vez eu li uma frase: “Quando você vir um adulto em uma piscina de bolinhas, lembre-se de que a primeira oportunidade de ele estar nela foi aquela.” E é sobre isso.
Quando a primeira peça de roupa chegou e meu companheiro me viu usando, ele disse, emocionado: “Que bom que você está voltando a ser você.” E faziam anos que eu não era eu mesma.E talvez seja isso que esteja acontecendo agora: eu estou voltando. Não para quem eu era antes, mas para quem eu sempre fui só que com mais delicadeza comigo mesma. Se permitir também é cura. Se cuidar também é resistência. E, depois de tudo, eu entendi que não é sobre roupas. É sobre dignidade, sobre identidade, sobre me olhar no espelho e reconhecer ali alguém que merece existir inteira.
Se for para recomeçar, que seja com carinho.
“Voltar a ser quem você é também é uma forma de cura.”